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Por Fernanda Lopes
Eu não me esqueço da sensação que tive quando terminei de ler Monster, de Naoki Urasawa. Fechei o último volume com um nó na garganta e um pensamento inquietante martelando na cabeça: todas as vidas realmente têm o mesmo valor? A resposta que eu queria dar era “sim, claro”. Mas a resposta honesta era bem mais complicada.
Dr. Tenma, o protagonista, passa a história tentando corrigir o erro que cometeu ao salvar Johan, um menino que se tornaria um monstro (um monstro de ser humano). Médico brilhante, movido pelo juramento de salvar vidas, ele acreditava que todas tinham o mesmo valor — até perceber que todas as vidas resultavam em impactos diferentes no mundo.
E aí entra a questão espinhosa: a vida de um assassino cruel que manipula e destrói centenas de outras vidas vale o mesmo que a vida de uma pessoa inocente? A sociedade gosta de pregar que sim, que somos todos iguais e que ninguém deve brincar de Deus decidindo quem vive ou morre. Mas na prática, bem sabemos que não é assim que funciona.
Pegue qualquer noticiário e observe. Quando um empresário famoso morre, temos reportagens, homenagens, retrospectivas emocionantes. Quando alguém pobre desaparece na periferia, a cobertura é rasa, às vezes nem chega a acontecer. Não é que as vidas sejam diferentes biologicamente — é que a sociedade decidiu que algumas importam mais.
Pense no caso de médicos em emergências de guerra. Eles precisam escolher quem tratar primeiro. Há critérios, claro — chances de sobrevivência, gravidade dos ferimentos — mas, no fim, são vidas sendo pesadas em uma balança. O mesmo acontece na economia, na política, nas relações internacionais. Um refugiado sírio e um cidadão europeu têm o mesmo direito à vida? Na teoria, sim. Na prática, bem… você sabe a resposta.
O valor das vidas nunca é algo que se dá de maneira igualitária. Às vezes, a vida de uma pessoa é dada por sua posição social, por sua riqueza, pelo poder que ela exerce, ou, em um caso ainda mais simples e cruel, por quem pode ou não pagar por um tratamento médico. Eu vejo isso todos os dias. Quanto mais se tem, mais sua vida parece valer. E quem não tem nada, muitas vezes não importa.
Entretanto, o dilema que Monster traz, e que continua me assombrando, é esse: salvar todas as vidas igualmente pode parecer justo, mas às vezes significa permitir que o pior da humanidade continue existindo. E aí? Como resolvemos essa equação sem perder nossa própria humanidade?
Se uma pessoa cometeu atrocidades que feriram centenas, se o seu modo de viver ameaça a própria estrutura da sociedade, não seria justo, ou ao menos compreensível, considerar que o peso de sua existência – do ponto de vista social e moral – é diferente? O mangá de Urasawa, nos convida justamente a essa conversa, a esse desconforto necessário para que possamos questionar as certezas.
Tenma realmente acreditava que todas as vidas valiam o mesmo, e por isso decidiu salvar Johan, no lugar de um prefeito. Uma criança sempre tem mais valor, certo? Sempre é mais inocente, sempre tem mais futuro. Mas a gente sabe como isso terminou. Johan cresceu e se tornou um assassino frio e manipulador, alguém que destruiu incontáveis vidas. Se Tenma pudesse voltar no tempo, teria feito a mesma escolha?
É aqui que a história me pega. Porque no nosso mundo ideal, somos ensinados a valorizar as crianças, a vê-las como esperança, como futuro. Mas e se aquela criança estiver destinada a se tornar um monstro? Será que todas as vidas ainda têm o mesmo valor?
Parece correto dizer que sim, que devemos sempre proteger os inocentes, mas Monster nos esfrega na cara a dura verdade: um ato de bondade pode ter consequências terríveis. O problema é que a gente nunca sabe de antemão quem será um Johan e quem será um ser humano decente.
Vamos nos aprofundar um pouco mais: O direito à vida é um dos pilares dos direitos humanos, um princípio que 77% das Constituições no mundo reconhecem atualmente. O mundo caminhou, pelo menos no papel, para garantir que toda vida tenha valor. O que, à primeira vista, parece um avanço civilizatório inquestionável. Mas, na prática, o que isso significa? Que toda vida deve ser protegida igualmente, sem distinção?
Se fosse assim, não teríamos execuções extrajudiciais, guerras seletivas e sistemas penais que, dependendo da classe social do réu, pesam a mão de forma muito diferente. O direito à vida é um conceito bonito no papel, mas na prática, parece que algumas vidas valem mais que outras.
Pensemos em um cenário concreto: uma pessoa que dedicou a vida a ajudar os outros, que nunca causou dano a ninguém, que trabalha, paga impostos e respeita as leis, morre em um assalto cometido por um criminoso reincidente. Esse criminoso, por sua vez, será preso, alimentado pelo Estado, terá direito a advogados pagos com dinheiro público e, dependendo do sistema, poderá sair e voltar a cometer crimes. Aqui, a pergunta volta: essas duas vidas tinham o mesmo valor? O direito à vida do criminoso pesa o mesmo que o da vítima?
Os defensores mais ferrenhos dos direitos humanos dirão que sim, que a vida é um direito inviolável porque qualquer violação desse princípio nos levaria a um caminho perigoso. Eu entendo o argumento, mas não consigo deixar de pensar que existe, sim, uma balança invisível pesando as escolhas de cada um. Afinal, até que ponto essa defesa irrestrita não acaba protegendo aqueles que mais desrespeitam a vida alheia?
E voltamos a Monster. Tenma, no auge de sua ética médica, salvou um garotinho sem saber que, ao fazer isso, estaria condenando dezenas de outras vidas. É claro que ele não tinha como prever, mas, e se tivesse? E se alguém dissesse: “Esse menino crescerá e será um assassino completamente frio”? Ele ainda teria escolhido salvar Johan?
A grande ironia é que Tenma não só salva Johan, como depois passa boa parte da vida tentando matá-lo, tomado pelo peso de sua própria escolha. Isso porque, no fundo, ele percebe que sua decisão teve consequências que vão além da simples ideia de que “todas as vidas importam igualmente”.
O mundo real nos dá exemplos o tempo todo de como aplicamos essa lógica seletiva. Pensemos nas guerras. Países que assinaram tratados internacionais garantindo o direito à vida bombardeiam populações civis sob justificativas diversas. Mas essas vidas que se perdem nos bombardeios valem menos do que as do lado atacante?
O ideal do direito à vida é nobre e necessário. Mas precisa vir acompanhado de responsabilidade. Proteger o direito à vida de um assassino em série, por exemplo, sem considerar o impacto que isso terá na vida de suas futuras vítimas, é um erro. No caso de Monster, Tenma salvou Johan porque acreditava que todas as vidas importavam igualmente. Mas será que, se pudesse voltar no tempo, ele faria a mesma escolha?
Então, o que define o valor de uma vida? O caráter? As ações? O potencial? Ou será que é simplesmente uma questão de sorte? Porque sejamos honestos, na prática, há vidas que valem mais para a sociedade. O que pesa mais: a vida de um cientista que pode curar doenças ou de um corrupto que desvia verbas da saúde? A vida de uma mãe que sustenta três filhos ou de um assassino reincidente?
É claro que não sou eu quem deve decidir quem vive ou morre. Mas também não vou fingir que vejo um criminoso cruel e um cidadão honesto com os mesmos olhos. Eu simplesmente não consigo comprar essa ideia romântica de que “toda vida é igual, toda vida tem o mesmo peso”.
Porque se há algo que Monster ensina, é que uma única escolha errada pode mudar o mundo para pior. E que salvar uma criança nem sempre significa salvar a humanidade.
O direito à vida é um princípio fundamental, mas a forma como ele é aplicado na sociedade mostra que há, sim, um jogo de pesos e medidas. A questão é: estamos dispostos a admitir isso?
Talvez a resposta esteja em algo que Tenma não percebeu desde o início: não se trata de decidir quem merece viver, mas de entender como garantimos que as pessoas não se transformem em monstros.
Fernanda Lopes, Jornal Choraminhices.
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