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Celulares Off, infância On

Por Fernanda Lopes

A primeira coisa que notei com a proibição dos celulares na escola foi o som. Sim, o som do intervalo mudou completamente. Antes, o que se ouvia era um silêncio estranho, quebrado apenas pelo barulho esporádico de um vídeo rodando sem fone ou por risadinhas abafadas enquanto alguém mostrava um meme para o amigo do lado. No primeiro dia sem celulares, os corredores pareciam meio perdidos. Alguns estudantes andavam de um lado para o outro, sem saber muito bem o que fazer. Era como se tivessem esquecido como se divertir sem um vídeo ou um jogo para ocupar as mãos e os olhos. Mas bastou um pouco de tempo para a transformação começar.

Agora, o pátio voltou a ter aquela bagunça gostosa de risadas, conversas, gritos animados de quem está correndo, pulando, jogando. E foi quando me dei conta: os alunos voltaram a ser crianças. Foi um alívio ver que, por instantes, as redes sociais e as distrações virtuais ficaram para trás, permitindo que o pátio fosse realmente um lugar de encontro, de imaginação e de pura diversão.

Esses dias, enquanto tomava meu café na sala dos professores, escutei um coro entoando “Salada, saladinha, bem temperadinha…”. Fui até a janela e lá estavam eles, batendo corda e cantando, com a mesma empolgação que eu tinha na minha infância. Em outro canto do pátio, vi uma rodinha de meninas brincando de “mãe da rua”, e alguns meninos organizando um campeonato de peão – quando foi que os peões voltaram à moda? Perto do bebedouro, crianças cantavam “Suco gelado, cabelo arrepiado” e se divertiam com o toque rítmico da brincadeira. Foi como assistir a um passado que eu nem lembrava que sentia saudade.

Eu não imaginava que a proibição dos celulares na escola faria tanta diferença. Mas fez. A proibição trouxe de volta algo que estava se perdendo: a espontaneidade. O brincar pelo simples prazer de brincar, sem precisar exibir nada para ninguém, sem a necessidade de curtidas ou comentários. Trouxe de volta o tempo desacelerado, aquele em que uma roda de conversa pode durar o intervalo inteiro, sem interrupções de notificações ou mensagens urgentes que, na verdade, não eram nada urgentes.

Agora, quando caminho pelo pátio, vejo crianças suadas e descabeladas de tanto correr, vejo competições acirradas para ver quem pula mais longe, vejo invenções de regras para brincadeiras que só fazem sentido para elas. Vejo amizade nascendo de uma troca de figurinhas ou de um jogo improvisado com um pedaço de giz no chão. É isso, quando bate o sinal, eles voltam para a sala com os joelhos ralados, os rostos suados, mas com uma energia que antes não existia. Porque brincar, de verdade, exige mais do que deslizar os dedos na tela. Exige criatividade, movimento, troca. E exige, acima de tudo, presença. Algo que, por um tempo, as crianças esqueceram como era bom.

E, no fim das contas, percebo que talvez não tenha sido uma proibição. Talvez tenha sido uma libertação.

Fernanda Lopes, Jornal Choraminhices.

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