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Por Fernanda Lopes
Eu me lembro exatamente do dia em que percebi que estava cruzando a linha. Foi um daqueles momentos de epifania tardia, como quando você percebe que esqueceu o gás ligado só depois de ter saído de casa. Eu estava sentada no pátio, observando uma aluna minha, a Duda, chorando. O choro era silencioso, mas a dor era visível até para quem passasse distraído. O problema? Uma briga com a mãe em casa. O instinto falou mais alto, e lá fui eu, me sentando ao lado dela, passando a mão em seu cabelo e dizendo o que qualquer pessoa bem-intencionada diria: “Vai ficar tudo bem.”
Só que nem sempre fica tudo bem. Nem sempre a gente consegue consertar o mundo com um abraço apertado e palavras de consolo. E, mesmo que a vontade de carregar as dores dos alunos seja grande, essa é uma mala que nunca cabe no nosso bagageiro. A gente tenta equilibrar os livros, as provas, as reuniões pedagógicas e, ainda assim, acaba cedendo espaço para os pedaços quebrados de quem nos olha com olhos esperançosos, buscando respostas que nem sempre temos.
O afeto exagerado de professores por seus alunos parece algo bonito à primeira vista. Quem não quer um professor que se importe, que olhe para além das notas e entenda o que está por trás da preguiça aparente, da rebeldia, do silêncio? Mas a linha entre se importar e se perder nesse afeto é mais tênue do que gostaríamos. E, por mais que eu soubesse disso na teoria, na prática a coisa desandava. A escola, que deveria ser um espaço de aprendizado, por vezes se transforma em um campo minado de emoções, e os professores se tornam soldados tentando desarmar bombas emocionais sem o treinamento adequado.
Já vi colegas de profissão entrarem em verdadeiros labirintos emocionais por conta de alunos. Professores que levavam problemas para casa, que perdiam o sono, que bancavam terapeutas, assistentes sociais, pais e mães substitutos. E, de repente, não estavam apenas ensinando gramática ou matemática, mas tentando costurar as frestas emocionais de crianças e adolescentes que, muitas vezes, tinham frestas demais para um remendo de pano.
E os alunos? No começo, se sentem acolhidos. É uma dádiva encontrar um adulto que ouve, que apoia, que está ali de verdade. Mas, aos poucos, o peso desse afeto excessivo recai sobre eles também. Porque nenhum professor pode ser uma boia salva-vidas permanente. E quando o professor que se envolveu demais percebe que precisa recuar — por desgaste, por limites que finalmente gritam sua presença — o aluno sente. Ele se ressente. Se decepciona. Porque a relação que deveria ser profissional, dentro dos limites do ambiente escolar, já extrapolou faz tempo. E o que era um vínculo positivo se torna uma ausência dolorida.
E aí, ninguém ganha. Nem o professor, que se desgasta até a exaustão emocional. Nem o aluno, que, em algum momento, sente o abandono, mesmo que não tenha sido intencional. É um ciclo cruel, de entrega sem limites e frustração inevitável. A educação, que deveria ser o centro de tudo, acaba ficando em segundo plano.
É claro que não estou dizendo que professores devem se tornar máquinas insensíveis, despidos de empatia. Pelo contrário. A educação, para ser verdadeira, precisa de afeto. Mas de um afeto consciente, estruturado, que respeita fronteiras e entende que ensinar é, antes de tudo, um ato de equilíbrio. Se um professor se sobrecarrega emocionalmente, ele não ensina melhor — ele ensina pior. E pior: corre o risco de deixar de ensinar de vez.
Então, sim, eu aprendi a lição. No dia seguinte ao choro da Duda, continuei presente, mas dentro do espaço que era meu. Perguntei como ela estava, fiz uma piada leve para aliviar o peso no ar e segui minha aula. A vida dela não era responsabilidade minha. Meu papel era estar ali, oferecendo ferramentas para que ela, sozinha, encontrasse seus próprios caminhos. Porque, no fim das contas, ensinar também é saber quando soltar a mão.
E, acima de tudo, saber que nem tudo cabe na mochila do professor.
Fernanda Lopes, Jornal Choraminhices.
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