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São Paulo, terra sem lei

Por Fernanda Lopes

A gente sai de casa e não sabe se volta. Simples assim.

A cidade pulsa, os carros passam, as pessoas andam apressadas. Mas, no meio disso tudo, o medo acompanha cada passo. Um medo que já virou rotina, que se esconde entre um olhar desconfiado e a pressa de chegar logo ao destino. Porque aqui, em São Paulo, ser assaltado não é questão de “se”, mas de “quando”.

Hoje foi a minha vez. Março de 2025. Em frente ao condomínio onde moro, na porta de casa, achando que ali eu estava segura. Ilusão. Um cara em uma moto parou do nada, apontou a arma pra mim e mandou eu abrir a bolsa. “Abre logo ou eu atiro”, ele disse. Simples assim. Como se minha vida valesse menos do que um objeto. Como se fosse direito dele levar o que era meu.

E levou. Meu Chromebook. Minha ferramenta de trabalho. Mas não foi só o notebook. Ele levou minha paz. Meu direito de sair na rua sem sentir esse medo esmagador, esse nó na garganta, essa sensação de que a qualquer momento posso ser a próxima a aparecer no noticiário como “vítima fatal de latrocínio”. Agora estou aqui, escrevendo com os dedos ainda tremendo, tentando entender o que aconteceu, tentando engolir essa raiva misturada com medo, com impotência.

Parece exagero? Não é. Basta olhar ao redor. Basta abrir qualquer rede social e ver quantas histórias iguais à minha se repetem todos os dias, nas mesmas esquinas, nas mesmas ruas, nos mesmos sinais de trânsito. Gente que sai de casa e não volta. Que morre sem nem entender o porquê. Como o jovem que estava indo para a faculdade e foi executado sem reagir, porque o assaltante, de moto, decidiu atirar antes mesmo de ele entregar o celular. Como a mulher que estava parada no farol e, ao demorar um segundo para destravar a porta, levou um tiro fatal. Como o pai de família que voltava do trabalho, entregou a mochila sem hesitar, mas ainda assim foi baleado e caiu ali mesmo, na calçada, sem chance de socorro.

A cada dia, um novo nome. Um novo rosto estampado nas manchetes. “Morre por nada.” Uma frase que já virou comum, como se perder a vida desse jeito fosse só mais um detalhe, mais um número na estatística. Não é mais sobre dinheiro, não é mais sobre bens materiais. É sobre um desprezo absoluto pela vida humana. Sobre gente que mata com uma frieza absoluta. Porque podem. Porque nada acontece com eles. É assustador como o acaso, o simples fato de estar na hora errada, no lugar errado, transforma a vida de alguém em estatística. E a morte dessas pessoas passa despercebida, sem maior importância. Um nome na lista de vítimas anônimas de um sistema que falha em cada esquina.

E a pergunta que martela minha cabeça desde então: com que direito? Com que direito esse cara decidiu que o que é meu deveria ser dele? Que poderia apontar uma arma para o meu rosto, me reduzir a nada, e me obrigar a entregar o que era meu, como se fosse a coisa mais natural do mundo? Em que momento da vida uma pessoa se olha no espelho e decide: “Hoje eu vou sair pra roubar, pra ameaçar, pra machucar alguém”? O que se passa na cabeça de uma pessoa assim? O que leva alguém a perder qualquer vestígio de humanidade e agir dessa forma? Como há pessoas que conseguem apertar um gatilho e destroçar uma família inteira?

A verdade é que ninguém tem resposta. E, pior, parece que ninguém realmente se importa. A polícia? Só aparece depois que já aconteceu, quando o estrago está feito e a vítima, no máximo, pode registrar um boletim de ocorrência que dificilmente levará a alguma consequência real. A justiça? Uma máquina emperrada, um teatro de leis frouxas e brechas jurídicas que garantem que o criminoso volte às ruas antes mesmo da vítima superar o trauma. É um looping de impunidade, onde quem rouba, ameaça e mata sabe que dificilmente será punido.

E a gente? A gente segue vivendo — ou melhor, sobrevive. Com medo. Com aquela tensão constante, olhando para os lados o tempo todo, desconfiando de cada moto que passa, de cada passo atrás de nós. O medo que vira trauma. O trauma que vira paranoia. O coração que dispara sem motivo quando uma moto desacelera por perto. A mão que aperta a bolsa com força, como se isso fosse impedir alguma coisa. A sensação de que a qualquer momento pode acontecer de novo. Porque pode. E eu sei que amanhã, depois de amanhã, semana que vem, esse mesmo cara vai estar nas ruas de novo. Armado, ameaçando outra pessoa, arrancando de mais alguém não só um objeto, mas o direito de viver sem medo. Ele não vai parar. E ninguém vai impedi-lo.

O pior é essa impotência. O desespero de saber que ninguém vai te proteger. Que a polícia chega tarde, que a justiça não funciona, que amanhã ou depois aquele mesmo assaltante vai estar solto, pronto pra fazer tudo de novo. A gente se revolta, sente raiva, sente desgosto. E sente medo. Um medo que não passa. Que corrói. Que vira pânico quando o semáforo fecha, quando uma moto vem em nossa direção, quando alguém vem andando rápido demais na calçada.

Nós aprendemos a viver assim. Mas será que isso é viver? Ou estamos apenas sobrevivendo, tentando passar despercebidos, torcendo para não sermos as próximas vítimas?

Eu queria respostas. Queria entender. Mas acho que, no fundo, nem tem explicação.

Fernanda Lopes, Jornal Choraminhices.

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