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Por Fernanda Lopes
Há uma sombra que nunca dorme,
oculta nos corredores do pensamento,
onde a luz não toca —
onde nem eu ouso entrar.
Ela sussurra perguntas afiadas,
sabe de tudo antes de mim,
decifra olhares, gestos,
esquadrinha silêncios como um código cifrado.
Não confia nos sorrisos,
nas palavras trocadas ao vento,
nas promessas que se desfazem
como areia entre os dedos.
Nunca a vi, mas a sinto —
em cada pausa, em cada desvio,
quando hesito antes de falar,
quando uma dúvida me prende a garganta
como um fio invisível.
Ela tem olhos onde eu tenho memórias,
tem segredos onde eu guardo certezas.
Espreita de trás do espelho,
distorce meu reflexo,
desafia a verdade com um sorriso enviesado.
“Você tem certeza?”
— ela pergunta,
e a certeza evapora
como névoa ao amanhecer.
Ela rastreia as pegadas dos meus passos,
questiona a firmeza do meu chão.
E se não for isso?
E se não for agora?
E se não for você?
E a cada instante, a cada olhar,
ela me vigia, e eu me pergunto:
será que tudo o que vejo
não passa de uma ficção,
uma construção de um mundo se dissolvendo
no momento em que o toco?
Não sei se vigia para me salvar,
ou se me mantém refém.
Se é bússola ou labirinto,
se é minha guardiã ou meu cárcere.
Mas há noites em que a ouço rir baixinho,
como quem já sabe o final.
Fernanda Lopes, Jornal Choraminhices.
2 Responses to A espiã dentro de mim