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Por Fernanda Lopes
Eu sempre fui daquelas professoras que acreditam que é possível fazer a diferença. Aquelas que, no final de cada dia, imaginam que, de alguma forma, contribuíram para o futuro de cada aluno. Mas, se tem uma coisa que me acompanha até hoje, é a lembrança de um aluno que eu não consegui ajudar como queria.
Ele chegou na minha sala no meio do ano letivo, com o olhar baixo e o corpo fechado, como se o mundo ao redor não fosse algo a ser notado. Ele parecia estar em um mundo à parte, mal respondendo às perguntas e, quando o fazia, quase sempre com uma voz baixa, quase como se tivesse vergonha de existir. Eu sabia que algo não estava certo, mas não sabia exatamente o que. Então, eu, tentando ser a professora que acredita em todos, comecei a fazer de tudo para me aproximar dele. Sempre que passava uma atividade, eu o procurava, tentava ajudar mais de perto. Me sentava com ele, conversava sobre o que ele gostava, o que o interessava. E nada, tudo parecia passar batido. Não era falta de vontade, ele só parecia estar… ausente, como se estivesse carregando algo muito pesado.
Eu passei a prestar mais atenção em seus olhos, que pareciam carregar um peso imenso, algo que ele tentava esconder a todo custo. Naqueles momentos, entendi o quanto ele estava distante de todos, mas também percebi o quanto ele estava se fechando para o mundo, como se não acreditasse que alguém poderia ajudá-lo a carregar o que estava vivendo. Não era apenas um aluno difícil. Era um garoto com uma dor invisível, algo que ele não sabia ou não conseguia nomear.
Lembro de uma vez que, no meio de uma aula, ele teve um momento de explosão. Ele estava sentado, mexendo na mochila, e, do nada, bateu a mão na mesa. Todo o corpo dele parecia vibrar de uma frustração acumulada, e, por um instante, parecia que o ar havia parado de circular. A turma ficou em silêncio, e ele, visivelmente abalado, levantou e saiu da sala. Eu fiquei ali, paralisada, sem saber o que fazer. Eu queria correr atrás dele, perguntar o que havia acontecido, mas algo me dizia que talvez não fosse o momento certo.
Fui até ele depois, tentei conversar. Perguntei o que estava acontecendo, se ele queria falar. Mas ele não se abriu. Ele apenas balançou a cabeça e disse: “Eu não sei explicar. Eu só não sei mais o que fazer.” A frustração dele estava estampada, mas ele não conseguia verbalizar o que o estava consumindo. Ele parecia estar lutando com algo muito maior do que ele — e eu, limitada pelas minhas ferramentas, não sabia como ajudá-lo da maneira que ele precisava. No fim das contas, o que ele mais precisava, talvez, fosse alguém para escutá-lo, de fato, sem pressa, sem soluções prontas.
O tempo passou, e ele se formou. Mas até hoje, quando fecho os olhos e me pego pensando nos meus alunos, lá está ele. Um aluno que eu não consegui entender completamente. Um aluno que, por mais que eu tenha tentado, não consegui salvar de si mesmo. E, por mais que eu tenha me esforçado, às vezes é impossível perceber se fiz o suficiente.
Eu aprendi uma coisa com ele, algo que me acompanha até hoje: a gente não pode carregar o mundo nas costas de todos os alunos. Às vezes, mesmo com toda nossa dedicação, a mudança não acontece da noite para o dia. A gente tenta, a gente acolhe, a gente ajuda dentro dos limites que temos. Mas não podemos salvar todos. Isso é algo que, como professora, me dói. Mas, ao mesmo tempo, me ensina.
Eu me pergunto, às vezes, como ele está agora. Se superou as batalhas dele. E, no fundo, sei que, talvez, a maior lição que ele me deixou foi que, mesmo nas situações mais difíceis, a presença de um professor — mesmo que silenciosa — pode ser uma forma de acolhimento. Mesmo quando não conseguimos consertar tudo, estamos ali, de alguma maneira, fazendo parte da história deles.
Então, fica aqui essa homenagem silenciosa a ele. Ao aluno que eu nunca consegui esquecer. Porque, de alguma forma, ele me ensinou muito.
Fernanda Lopes, Jornal Choraminhices.
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